Em Janeiro de 2008 residia na Bélgica, e estava à procura de trabalho assim como neste momento, estamos em Janeiro de 2009. Embora pareça que a história se repete, entrei de facto num novo ciclo.Uma espécie de um terramoto, mudou a forma como hoje vejo as coisas, e observo tudo com olhos muito diferentes, com relação há um ano atrás.
A minha mãe, era diabética desde há cerca de 20 anos e aos 61 foi diagnosticada com um tumor pancreatico, na fase 4.
Nos últimos dois anos, chorava mais do que o costume ao telefone mas eu achava que era um processo da idade. Não prestei atenção à tristeza dela, como tão pouco levava a diabetes muito a sério. Só mais tarde, ao relembrar isto é que percebi que a doença dela já teria começado há muito tempo e que provavelmente existe uma causa mais profunda para as doenças, em geral.Já no final de 2007, a diabetes da minha mãe estava descontrolada e teve de passar à insulina, em Novembro desse mesmo ano. Os médicos diziam que era por falta de dieta e de exercicío e ninguém recomendou um exame mais profundo para saber a origem desta alteração. Desde o ínicio de 2008, constantemente com gripes e a sentir-se mais fraca do que o normal, era-lhe incessantemente recomendado antibiótico, o que lhe prejudicava ainda mais o seu sistema imunitário e sem produzir resultados. A minha mãe, não bebia, não fumava, tentava fazer uma dieta saudável e caminhar. Ocupava o seu tempo entre uma casa em Lisboa e outra no distrito de Setúbal onde o seu orgulho era o seu jardim. É em Maio de 2008, depois de uma estadia nas termas, que começam as dores nas costas e logo se seguem os vómitos. Assim começou também a dança dos hospitais e os diagnósticos absurdos como 'trata-se de uma gastrite', 'em principio são apenas gases' e 'isso são só nervos, a senhora é muito nervosa'. Olhando para o histórico de uma pessoa com diabetes há mais de 20 anos, que passou todo o ano muito fraca, e que está a vomitar há mais de 4 semanas sem parar, perdendo cerca de 7kg, esperava-se que os médicos fossem um pouco mais detalhistas e cuidadosos.
Finalmente em ínicios de Agosto sabemos que se trata de um tumor pancreatico na fase 4, isto é que já passou para um outro orgão, neste caso para o fígado.
O tumor já não era operável, portanto iniciou-se a quimioterapia em finais de Agosto. Até lá, a mãe esteve sempre com dores e vómitos. Passou aproximadamente 2 meses e meio a vomitar e sem dormir, por causa das dores. A medicação que lhe administravam, era fraca para tratar o tumor mas já estava a debilitar o seu sistema imunitário.
A sua barriga inchou como uma balão e não se descobria como retirar o líquido. Quase não podia caminhar, nem comer. A partir de meados de Setembro conseguimos começar a retirar liquido e desde então, tiravamos líquido uma ou duas vezes por semana. Não era apresentado qualquer tratamento de compensação para o sistema imunitário depois de cada sessão de quimioterapia, nem qualquer compensação para a remoção de líquido.
A 10 de Dezembro de 2008, a mãe deixou de andar. Começou a experimentar estados de confusão e perdas de memória. Desenvolveu uma candidiase oral (sapinhos) muito avançada, devido à quimioterapia. Todas as semanas a visitar o hospital e a queizar-se de dores, e nunca lhe foi tratada esta doença, que lhe impedia de comer e quase de falar. Nesta fase parou a quimioterapia e foi internada.
A 22 de Dezembro, depois de conseguirmos alta para passar o Natal em casa, retirou-se a morfina e começou a ter alucinações graves. Só mais tarde percebemos que eram forma de exteriorizar todas as ansiedades que tinha acumulado.
A 25 de Dezembro, voltou a ser internada, desta vez nos cuidados paliativos do hospital e não regressou a casa.
A 11 de Janeiro de 2009, a mãe faleceu de tarde, com o ventre extremamente inchado, com derrames em todo o corpo e quase sem mobilidade. Felizmente estava rodeada de amigos e familia, dando-lhe a mão e rezando por ela.